Artigo de opinião | A crise pandémica e a retoma económica em Braga

03 Dez 2021

Braga é indubitavelmente umas das cidades portuguesas que está a registar um dos processos de retoma mais vigorosos do país. Em primeiro lugar, porque manteve a sua estrutura empresarial e não foi afetada por um aumento substancial do número de desempregados. Conseguiu, assim, manter a capacidade de resposta da oferta e o poder aquisitivo da procura. Em segundo, porque é um dos territórios mais atrativos, vibrantes e dinâmicos do país em termos empresariais, o que faz com que seja um destino apetecível quer para investidores, quer para consumidores.

No setor do comércio, desde o mês de maio que, em Braga, se tem vindo a registar um crescimento consistente de volume global de vendas comparativamente aos meses homólogos do ano 2019. Se não houver um retrocesso os últimos dois meses deste ano, é possível que se encerre o ano com um nível de faturação igual ou até ligeiramente superior ao de 2019.

Já no caso concreto do setor do turismo, a retoma está a acontecer a velocidades distintas: uma, mais rápida, nas atividades menos dependentes de turistas estrangeiros, como é o caso da restauração, e outra, mais lenta, nas atividades em que esta dependência é mais acentuada, como é o caso do alojamento.

Na restauração, com o aliviar das restrições às atividades económicas e o aumento significativo da procura dos consumidores locais e do turismo interno, em julho interrompeu-se uma série de 16 meses consecutivos de perdas de faturação. E, daí para cá, tem vindo a consolidar-se um processo consistente de retoma, registando-se até um aumento gradual e progressivo da velocidade da recuperação da atividade no setor. No período de julho a outubro, a restauração registou mesmo um crescimento de cerca de 20% face a igual período do ano 2019 e de 32% face a 2020. Ainda assim, nos primeiros dez meses de 2021, as vendas na restauração seguem com uma quebra de cerca de 24% face a 2019.

No caso do alojamento, o regresso ao crescimento chegou um mês mais tarde – em agosto -, após o fim das restrições à atividade empresarial e o retomar efetivo da livre circulação das pessoas em Portugal. A recuperação neste setor é, todavia, mais tímida e menos consistente do que na restauração.

É certo que no acumulado do ano 2021, o setor do Turismo irá crescer face a 2020, mas comparativamente ao ano de 2019 ainda iremos registar um decréscimo no volume de negócios, em virtude do confinamento a que estivemos sujeitos no 1º trimestre do corrente ano que prejudicou severamente os resultados do ano em curso.

Estou, no entanto, convicto que, em 2022, caso não venhamos a registar um novo retrocesso na situação pandémica, iremos superar os níveis de faturação pré-pandemia, retomando o processo de afirmação turística, a nível nacional e internacional, que se vinha a verificar até 2019.

 

Impactos na demografia empresarial

Sem grandes surpresas, a intensidade e a duração alongada desta crise fez-se sentir na dinâmica e na demografia empresarial da região. Pese embora a dureza dos impactos económicos e sociais da pandemia – estimo que em Braga as perdas potenciais no comércio e turismo tenham superado os 500 milhões de euros -, a resiliência do setor empresarial foi verdadeiramente extraordinária.

Repare-se que, com um contexto fortemente adverso, o abrandamento da dinâmica empresarial não foi muito expressivo. Ao nível da constituição de novas sociedades, em 2020 registou-se uma diminuição de cerca de 10% face a 2019. Já do outro lado da balança, o número de dissoluções aumentou cerca de 22%, o que significou apenas mais 74 empresas dissolvidas do que em 2019. Já em termos de processos de insolvência, não se verificou, até à data, um efeito visível na nossa região.

Estou certo que a capacidade de reinvenção evidenciada pelos empresários e a sua enorme resiliência foram fatores absolutamente críticos para as empresas conseguirem ultrapassar este período tão turbulento, no qual durante muitos meses tiveram estabelecimentos encerrados e receitas reduzidas a praticamente a zero.

Mas, as crises têm este efeito positivo de provocar a mudança, de obrigar à reflexão estratégica e à tomada de decisão, da procura da eficiência e da otimização dos processos. As empresas que ultrapassaram esta crise, e felizmente em Braga foram a esmagadora maioria, são hoje empresas mais bem estruturadas, mais eficientes, mais produtivas e com um alinhamento estratégico mais atual.

É, no entanto, de salientar a importância decisiva das medidas de apoio às empresas promovidas pelo Estado Português, quer na manutenção e sustentabilidade das empresas, quer na preservação dos seus postos de trabalho. Embora com diversos problemas na sua operacionalização, estas medidas foram fundamentais para as empresas ultrapassarem a fase crítica da pandemia.

 

– artigo de opinião do Diretor Geral da AEB, Rui Marques, no Jornal Correio do Minho

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