Artigo de opinião | Legislativas 2022 – análise e expectativas

11 Fev 2022

No passado dia 30 de janeiro, o PS obteve uma vitória clara e inequívoca. A maioria dos portugueses confiou no projeto político de António Costa para governar Portugal nos próximos 4 anos. Pese embora, a maioria absoluta conquistada não tenha alcançado os números atingidos por Cavaco Silva ou José Sócrates, a verdade é que não deixa de ser impressionante que o PS tenha ganho todos os círculos eleitorais, à exceção da região autónoma da madeira, e tenha ganho com uma folga que nenhuma sondagem anteviu.

Tenho ouvido muitos analistas a dizer que os portugueses quiseram dar uma maioria absoluta ao PS. Confesso que não concordo totalmente com esta formulação. Não creio que os votantes no PS tivessem intenção premeditada em conceder uma vitória por maioria, mas sim de escolherem este projeto político para governar Portugal. A maioria decorre, naturalmente, de maior parte dos votantes ter votado no PS e do apuramento dos deputados eleitos por cada círculo eleitoral que proporcionou esta maioria.

Certo é que, por um lado, os portugueses preferiram o PS ao PSD (foram mais de 772 mil votos de diferença), e, por outro, preferiram que o PS não ficasse dependente de acordos com a ‘geringonça’ ou ‘eco geringonça’ (Bloco, PCP e PAN), castigando severamente estes partidos que, juntos, perderam 422 mil votos comparativamente a 2019 (que suportam na íntegra os 435 mil votos a mais que o PS regista face a 2019).

A área política do centro-direita reconfigurou-se, emergindo dois novos protagonistas: Chega e Iniciativa Liberal. Juntos ganham mais 551 mil votos do que em 2019, o que lhes permitiu alcançar o 3º e 4º lugar das forças políticas com mais votação e mais deputados eleitos no Parlamento, respetivamente.

Apesar de derrotado no confronto com o PS, se tivermos em conta os resultados expressivos do Chega e IL, o PSD acaba por demonstrar uma  resiliência assinalável nesta eleição. Obteve mais 114 mil votos que em 2019, ao mesmo tempo que os partidos à sua direita registaram mais 420 mil votos do que em 2019 (aos 551 mil votos a mais obtidos pelo Chega e IL, desconta-se 131 mil votos perdidos pelo CDS). Se é verdade que demonstrou resiliência, não é menos verdade que não foi capaz de federar os votos desta área política como o PS foi capaz de fazer à esquerda, o que acabou por ser determinante no resultado das eleições.

Uma nota para o CDS que continua numa trajetória de definhamento e com muitas dificuldades de ultrapassar a perda de duas fações importantes do seu tradicional eleitorado para o Chega e IL. A crise na liderança do partido, que não tem conseguido mobilizar e unir o partido, juntamente com a não eleição de qualquer deputado, retira-lhe importância política, protagonismo e acesso regular aos palcos mediáticos, o que dificultará o seu processo de recuperação.

Acredito que uma solução estável de governação é positiva para o país. O PS tem, pois, condições únicas para mostrar o virtuosismo do seu projeto político para o país. Com maioria no parlamento, um pacote de fundos europeus para executar com um envelope financeiro de que não há memória (PRR e PT2030) e um ciclo económico que se antevê francamente favorável, o governo tem de ser capaz de empreender as reformas que o país necessita para ter um Estado mais ágil e eficiente, para ter serviços públicos mais acessíveis e com melhor qualidade de serviço e para tornar o seu sistema fiscal mais competitivo e amigo das famílias e empresas.

Precisamos de uma nova geração de políticas públicas, que apostem numa cultura de relacionamento com os agentes económicos privados e na valorização do papel da economia de mercado e da iniciativa privada.

Precisamos de uma estratégia económica de médio prazo, ambiciosa, mas realizável no enquadramento da zona euro, que coloque a competitividade como preocupação transversal na intervenção do Estado na economia.

As novas gerações, mais exigentes e preparadas para os desafios do futuro, não aceitam mais um país estagnado e sem rumo, um país que não cresce o suficiente para apanhar o comboio da modernidade e o pelotão da frente das economias mais desenvolvidas e consolidadas do mundo.

Neste novo ciclo político, o governo tem, por isso, de criar as condições para que a economia se transforme, se torne mais resiliente, mais sustentável e mais competitiva. O desafio tem que ir para além do mero crescimento económico, temos que convergir com a Europa e isto significa crescer a um ritmo superior à maioria dos nossos parceiros europeus.

O caminho não vai ser fácil e surgirão, com certeza, diversas dificuldades que podem atrapalhar o processo, como sejam: a inflação, a crise energética, o aumento das taxas de juro e consequente aumento do custo da dívida, a escassez de matérias-primas e de recursos humanos qualificados ou até os impactos de uma escalada da tensão no conflito Ucrânia-Rússia. Porém, a oportunidade de que dispomos é única. Não a podemos desperdiçar. É tempo, por isso, do país entrar num novo ciclo económico, marcado por um crescimento mais robusto, sustentável e duradouro, que lhe permita, num tempo de grandes e aceleradas mudanças, vencer os desafios com que está confrontado e encetar, finalmente, um verdadeiro percurso  de convergência no seio da União Europeia.

 

– artigo de opinião do Diretor Geral da AEB, Rui Marques, no Jornal Correio do Minho

Próximos cursos
Agenda
Braga Romana à Mesa
20 de Maio, 2026 ~ 24 de Maio, 2026
Primeira Hora com Negócios
3 de Junho, 2026
Moda Braga | Coleção Primavera/Verão 2026
3 de Junho, 2026
Torne-se associado
A AEB oferece aos seus Associados uma série de vantagens nos serviços que presta.