Artigo de Opinião | O Associativismo empresarial e os desafios do emprego

23 Fev 2022

Ao longo dos últimos anos tem sido possível percecionar que o nosso país tem vivido uma realidade absolutamente desigual (mesmo dicotómica) na área do emprego. Subsistiam (infelizmente) situações de sub-emprego e de emprego anormalmente precário e estas situações coexistiam com outras de enorme falta de profissionais qualificados e de existência de profissões com níveis remuneratórios (felizmente) muito elevados em comparação com a “outra realidade”. Atualmente, caímos numa situação muito mais preocupante. Se a parte positiva é que diminuiu e tem vindo a diminuir o número de pessoas em situação precária de emprego, a parte claramente negativa é que é generalizada a queixa dos empresários sobre a falta de pessoas para trabalhar, seja qual for a área de atividade.

Vou saltar aqui uma explicação inacreditável que ouvi em período de campanha eleitoral (se as empresas não conseguem arranjar mão de obra devem olhar para as suas folhas salariais) pois entendo-a no calor da luta e da trica partidária e dita por alguém que provavelmente nunca teve a responsabilidade de pagar um salário. Saltemos pois esse desvario que com certeza foi pontual e foquemo-nos no mundo real.

Às associações empresariais chegam diariamente dezenas/centenas de queixas de empresas que não conseguem contratar pessoas. Esta é a realidade. Se considero que (também) há culpas das empresas e dos seus empresários? Claro que sim, sem a mínima duvida, pois há inúmeras empresas que não perceberam ainda que a noção de “patrão à antiga portuguesa” acabou há muitos anos (aliás nunca deveria sequer ter existido) e que a noção do quero, posso e mando e da falta de respeito pelos assalariados é algo que afasta as pessoas num mundo globalizado em que tudo se sabe.
No entanto, não deixa de ser factual que … há falta de pessoas. Poderão pensar que isto é uma forma simples de resumir a questão, mas é a mais pura realidade. Temos falta de pessoas e precisamos de reconhecer que precisamos de “importar recursos humanos”, qualificados e menos qualificados. Permito-me sobre isto, deixar aqui algumas notas:

– é difícil que a necessidade de importação de pessoas seja percecionada por todos quando há forças partidárias que crescem com retórica mentirosa e violenta em relação a quem, legitimamente, tenta encontrar no nosso país e na União Europeia uma nova forma de refazer a vida:

– é difícil importar pessoas menos qualificadas quando são ainda vários os casos de quase escravatura que nos entram pelos olhos dentro. Queixávamo-nos amargamente de casos ocorridos com portugueses na Holanda (Países Baixos) há alguns anos, mas quando surge a “nossa oportunidade” não deixamos de reagir da mesma forma, perante cidadãos que apenas procuram em Portugal a fuga a uma vida de miséria;

– as empresas não querem que o estado importe pessoas (este termo é em si horrível), mas no mínimo … que não faça o que faz tão bem em tantos sectores da vida empresarial: atrapalhar. Estando ligado a associações empresariais há mais de duas décadas, continuo a percecionar que os obstáculos são tantos na hora de contratar no estrangeiro que muitos empresários optam por desistir. Há uns anos e em boa hora o estado português criou o Tech Visa mas hoje esse conceito está completamente ultrapassado e urge simplificá-lo e alargá-lo a todos os sectores da nossa economia;

– sabemos e ninguém o pode negar que em muitos casos são projetos de investimento com recurso a fundos comunitários que ajudam a alavancar o crescimento de ideias nas empresas. Muitos desses projetos continuam a ter como métrica crucial a contratação de pessoas, o que é hoje um “completo disparate” e um bloqueio incontornável. Não são poucos os casos de empresas com projetos de investimento de sucesso, com acordos com organismos públicos de gestão de fundos comunitários que acabam por ter que abortar esses projetos pois não cumprem a métrica essencial de contratar mais pessoas, pois elas não existem e o processo de legalização de quadros estrageiros e de reconhecimento de competências é muitas vezes algo tortuoso, incompatível com a realidade empresarial, em que a rapidez de decisão não se compagina com bloqueios em processos administrativos pela maquina do estado central.

Por tudo isto e muito mais, há áreas em que o papel das associações empresariais é incontornável :

– trabalho junto das universidade e politécnicos em termos de formação ao longo da vida, de forma a melhorar a performance dos atuais quadros (temos na nossa região bons exemplos, com o trabalho efetuado em conjunto com a UM e o IPCA);

– trabalho junto das Câmaras Municipais na criação de redes de apoio para os estrangeiros que procuram Portugal e a nossa região para trabalhar;

– trabalho ativo junto do IEFP (e este terá que ser bidirecional) procurando colocação para ativos que estejam desempregados. Este trabalho tem que ser conjunto e fugir de fórmulas bafientas de procura de emprego. Tem que envolver diretamente os empresários, os lideres das organizações e os lideres locais/regionais do IEFP, sem qualquer desprimor para os quadros intermédios “destas duas partes”;

– definir países alvo para contratação, conhecendo primeiro as necessidades macro dos vários sectores e a partir dessa definição avançar para estratégias one to one (todos os países são diferentes) de captação de recursos.

Independentemente de ser essencial a interação entre empresários, associações empresariais, autarquias, instituições de ensino e organismos públicos para implementação destas e de outras medidas, há algo que é essencial que todas empresas percebam : não é o “estado no sentido lato” que nos vai resolver por passe de mágica os problemas de falta de mão de obra, não é o IEFP (organismo do estado) que é obrigado a arranjar as pessoas que faltam atualmente nas empresas, não são as autarquias, nem as instituições do ensino superior que vão resolver o problema, até porque lidam com a mesma falta de quadros que as empresa sentem e também não são as queixas nas redes sociais que vão trazer pessoas para trabalhar. Cada empresário, per si ou em conjunto com as suas associações empresariais terá que fazer algo em que nós portugueses somos bons : “mexer-se” e não ficar à espera, esgaravatar, procurar pessoas, ser inventivo. O lamento puro e simples nada resolve.

– artigo de opinião do Presidente da Mesa da Assembleia Geral da AEB, Pedro Fraga

Próximos cursos
Agenda
Torne-se associado
A AEB oferece aos seus Associados uma série de vantagens nos serviços que presta.