Artigo de Opinião | Pessoas (ou a falta delas)
07 Set 2022

Tendo recebido da parte do Dr. Paulo Monteiro o amável convite para continuar a partilhar algumas reflexões com os leitores do Correio do Minho, gostava de centrar este retorno em algo que ano após ano, mês após mês, se agrava de forma acentuada : a queixa habitual das empresas e dos empresários sobre a falta de pessoas para trabalhar.
Recordo-me perfeitamente que desde 2016/2017 este começou a ser um tema do dia a dia para as empresas do sector onde opero : Tecnologias da Informação, vulgo Informática. Na altura todos olhámos (e com certeza que também me incluo neste grupo) para esta questão como uma nuvem passageira, como um fenómeno pontual que, como tantos outros na economia de um país/sector, acabaria por passar.
Infelizmente a nuvem não passou, adensou-se e tornou a paisagem absolutamente escura. Passou-se do sector das TI para o mercado em geral e hoje temos uma brutal escassez de mão-de-obra, sendo que este não é um problema português, mas sim do mundo ocidental em geral. Como sempre, o mercado, ferozmente capitalista, reagiu da única maneira que sabe : com a canibalização dos países mais fracos e, dentro destes, das empresas mais fracas. Só que esta canibalização foi/é possível até ao momento em que pouco ou nada resta e se hoje a situação é ligeiramente melhor do que há uns meses atrás, é factual que em muitas empresas se esteve/está à beira do abismo, sem pessoas sequer para abrir as portas e sem poder responder a encomendas.
Sendo este um tema que dará com certeza para várias crónicas, limito-me hoje a deixar um conjunto de pequenas notas :
– esta não é uma questão pontual e é uma questão que se irá agravar com o esperado crescimento da economia, pois mais e melhor economia gera mais emprego e acentuará a falta de pessoas;
– ao longo dos anos fomos “desenobrecendo” algumas profissões, nomeadamente as que implicam atividades físicas mais pesadas e isso reflete-se na ainda maior dificuldade de alguns sectores. Há
alguns dias, num seminário em que participei alguém perguntava : “todos nos queixamos que não há pessoas para fazer reparações, para trabalhar na Construção Civil, etc, etc. Como é que cada um de nós reagiria se hoje, em 2022, o nosso filho de 18 anos chegasse a casa e nos dissesse : eu não quero ir para a universidade pois o meu sonho de vida é ser calceteiro”. Não é uma história, nem é uma questão meramente retórica e aqui falando de Portugal em contraponto com países como por exemplo a Alemanha, desvalorizámos fortemente os chamados ofícios e a minha geração, aquela que tem hoje filhos entre os 15/20 e os 30 anos tem enorme responsabilidade nisso, pois aceitámos que, como sociedade, não fosse dado o enquadramento adequado a estes ofícios que são a base de qualquer sociedade desenvolvida. Não devemos ter qualquer problema em aprender com os melhores e a este nível o sistema dual alemão, mesmo podendo gerar alguma assimetria entre o topo e a base social, não deixa de ser bem mais interessante que o modelo de ensino profissional que implementámos em Portugal. Felizmente, nos últimos anos o ensino politécnico tem dado uma resposta extraordinária com os TeSP (Técnicos Superiores Profissionais) e na nossa região vejo com enorme orgulho o trabalho que o IPCA tem vindo a fazer com as empresas a este nível;
– continuando nas pequenas notas sobre este tema, é evidente que nas sociedades ocidentais, em que o primado está no ter e, não no ser, torna-se quase obrigatória a procura incessante de melhores condições financeiras por parte de quem é contratado, muitas vezes ignorando que num projeto profissional a componente salarial é apenas uma das componentes importantes mas não pode ser a única componente;
– outra nota pertinente tem a ver com o advento do teletrabalho, que admito sempre ter defendido, embora num modelo diferente daquele a que chegámos. A implementação massiva de teletrabalho em alguns sectores faz com que qualquer jovem de Braga trabalhe indiferentemente, a partir de casa, numa empresa alemã, norte-americana ou japonesa, empresas/países com índices de rentabilidade que não se comparam com os das empresas nacionais (seria interessante perceber aqui o impacto futuro que isto tem no sistema de segurança social português que é público e universal);
– felizmente temos tido enorme capacidade, como país, de captar investimento estrangeiro e, em muitos casos, investimento estrangeiro altamente qualificado.
Mas, temos que ter consciência de factos como este (mero exemplo) : se uma empresa canadiana do sector X se instalar num dado concelho do interior de Portugal e precisar de contratar 150 pessoas, não tenham dúvidas que essas 150 pessoas virão das pequenas empresas locais que irão pura e simplesmente desaparecer, pois uma coisa é estar em sectores altamente competitivos a nível internacional como Tecnologias de Informação e outra é termos no interior do país milhares de pequenas empresas que trabalham para o mercado local e que têm taxas de rentabilidade baixíssimas e que não poderão competir para “segurar” os seus colaboradores e que, em função disso, irão encerrar a sua atividade. Não se entenda isto como qualquer posição (minimamente) contrária à captação de investimento estrangeiro; entenda-se apenas como um alerta para uma situação real e que se agrava todos os dias, sendo importante não esquecer que Portugal vai muito além das suas três principais cidades : Lisboa, Braga e Porto;
– durante muitos anos e aqui admito em que em contra-ciclo com muitos colegas empresários, sempre achei que a legislação laboral não era bloqueio para investirmos e criarmos mais valor. Sempre achei que a burocracia de estado e a morosidade do sistema de justiça eram muito mais perniciosas que o enquadramento laboral existente. Hoje entendo que tudo o que diz respeito à facilidade de contratação de pessoas, de qualquer parte do mundo, é o principal bloqueio ao desenvolvimento das empresas nacionais e existe a este nível um maniqueísmo absolutamente ridículo.
A validação de competências (reconhecimento de habilitações académicas) de profissionais estrangeiros é um processo de uma morosidade quinto-mundista; os tempos de legalização de cidadãos estrangeiros que querem vir para Portugal é revelador que nada mudou na perceção que o estado tem sobre as dificuldades de contratação por parte das empresas; Portugal não faz captação ativa de pessoas em países onde ainda somos vistos como um “el dorado” europeu (poderá haver boas notícias a este nível no curto prazo) e, não posso finalizar este ponto sem referir algo que é fundamental: continuamos a não aligeirar os custos de saída dos colaboradores das empresas quando tal se processa por sua decisão. Sempre entendi que quando uma empresa decide prescindir de um colaborador… deve pagar por isso, pois se se enganaram no match entre a posição e o contratado… têm que assumir o erro e pagar por ele.
O que custa a entender e custa ainda mais a entender em momentos como os que vivemos, em que a mobilidade por decisão dos colaboradores aumentou imenso, é que tenham que ser as empresas a premiar essa mobilidade aquando da saída de colaboradores que decidiram (de forma legitima, note-se) mudar de projeto profissional. Mas sempre foi assim, são direitos adquiridos, dir-me-ão. Volto atrás… quem gere empresas e entenda prescindir de um colaborador tem que pagar por isso e a discussão se são 12 ou 30 dias de indemnização por cada ano é uma discussão irrelevante neste momento, pois são raríssimas as empresas que prescindem de colaboradores ! Relevante é ter que enfrentar uma mobilidade que vai crescendo (nomeadamente nos empregos de “média-alta gama salarial” e não nas pessoas de salário mais baixo) e olhar para recibos de saída e perceber que uma das melhores profissões em Portugal, neste momento, é mudar de emprego por iniciativa própria de, por exemplo, 8 em 8 meses. Como diria o ilustre Secretário Geral das Nações Unidas… basta fazer as contas. Quem é beneficiado? O estado, através dos impostos que arrecada nos inúmeros itens desses recibos de saída e naturalmente o colaborador. Quem paga? As empresas, claro.
– artigo de opinião do Presidente da Mesa da Assembleia Geral da AEB, Pedro Fraga no Jornal Correio do Minho