Opinião | A embalagem já não é acessória – é estratégica.

10 Abr 2026

A indústria da embalagem está a entrar numa década decisiva. Impulsionado por um enquadramento regulatório cada vez mais exigente, pela evolução das expectativas dos consumidores e pela necessidade urgente de reduzir o impacto ambiental, o setor vive uma transformação estrutural. Neste novo contexto, a embalagem deixou de ser um elemento funcional. Tornou-se um dos principais fatores de competitividade industrial.

Portugal está particularmente bem posicionado para este novo ciclo.

Com mais de 3,5 mil milhões de euros em volume de negócios, mais de 16 mil postos de trabalho e presença em mais de 150 mercados internacionais, a indústria da embalagem em Portugal é hoje um dos setores mais dinâmicos da economia nacional. Com cerca de 37% da sua atividade orientada para a exportação e um crescimento de 85% na última década, deixou de ser um suporte da cadeia de valor e passou a ser um dos seus elementos mais estratégicos.

Há uma razão clara para isso: é na embalagem que hoje convergem três forças decisivas, a exigência ambiental, a pressão regulatória e a diferenciação de mercado. É neste ponto de interseção que se vai definir quem lidera e quem fica para trás.

Portugal tem vindo a construir, de forma consistente, um dos ecossistemas de embalagem mais completos e competitivos da Europa.

Poucos países combinam, com esta densidade, competências em vidro, plástico, papel e cartão, metal e cortiça, suportadas por uma indústria altamente especializada em moldes, automação, impressão e engenharia. Empresas como a BA Glass, a Logoplaste, a Corticeira Amorim, a Navigator ou a Colep Packaging demonstram a capacidade de operar à escala global, fornecendo soluções técnicas avançadas a clientes multinacionais. Em torno destas empresas existe uma rede dinâmica de PME que reforça a agilidade, a inovação e a capacidade de adaptação do setor.

Esta base industrial integrada é uma das principais vantagens competitivas do país. Mas não é a única.

A sustentabilidade, que durante anos foi vista como um custo, tornou-se hoje um critério de acesso ao mercado. O novo enquadramento europeu, nomeadamente o Regulamento das Embalagens e Resíduos de Embalagens, está a acelerar a transição para soluções totalmente recicláveis, circulares e de menor impacto ambiental. Neste contexto, Portugal parte com vantagens estruturais relevantes.

O país dispõe de uma das maiores quotas de eletricidade de origem renovável na Europa, permitindo processos produtivos com menor pegada carbónica. As empresas têm vindo a investir de forma consistente em ecodesign, redução de materiais, soluções monomaterial e modelos de economia circular. Existe também uma crescente articulação entre indústria, universidades e centros tecnológicos, que está a acelerar o desenvolvimento de soluções de nova geração.

A isto soma-se um outro fator crítico: a combinação entre engenharia e design.

A embalagem portuguesa distingue-se não apenas pela sua qualidade técnica, mas também pela sua capacidade de gerar valor na experiência do consumidor, particularmente em segmentos premium como o vinho, a cosmética ou os produtos gourmet. Num mercado onde a diferenciação é cada vez mais decisiva, esta capacidade é um ativo estratégico.

A localização geográfica reforça ainda mais este posicionamento. Com acesso privilegiado aos mercados europeu, americano e africano, e com infraestruturas logísticas modernas, Portugal afirma-se como uma solução competitiva num contexto em que as cadeias de abastecimento estão a ser redesenhadas com base em critérios de proximidade, resiliência e sustentabilidade.

Tudo isto aponta numa direção clara: Portugal reúne condições reais para se afirmar como um hub europeu da embalagem.

Persistem, no entanto, desafios estruturais, em particular ao nível da escala e da articulação do setor, que importa superar. Num mercado global altamente competitivo, a fragmentação limita a capacidade de investimento, de inovação e de afirmação internacional. Dar o próximo salto exige mais cooperação, mais massa crítica e uma visão estratégica partilhada.

É neste enquadramento que surge o SustainablePackPT, não como um projeto isolado, mas como um instrumento de aceleração.

Promovido pela AEB e pela NERLEI, as Câmaras de Comércio e Indústria de Braga e Leiria, com o apoio do Portugal 2030, o SustainablePackPT tem como objetivo reforçar a capacitação das empresas, apoiar a adaptação ao novo quadro regulatório e potenciar a projeção internacional do setor em mercados estratégicos. Ao ligar empresas, conhecimento e mercados, esta iniciativa contribui diretamente para transformar capacidade instalada em liderança competitiva.

Há uma mudança de paradigma que importa assumir. Exportar mais já não chega. É preciso exportar melhor, com mais valor, mais inovação e mais sustentabilidade incorporada.

A próxima década será decisiva. A pressão regulatória vai intensificar-se, a exigência dos mercados vai aumentar e a concorrência será cada vez mais qualificada. Os países que conseguirem alinhar capacidade industrial, sustentabilidade e inovação vão liderar esta transformação.

A embalagem já não é acessória. É estratégica. E Portugal tem hoje as condições para se afirmar como um dos hubs europeus mais relevantes neste setor. Mas os hubs não se declaram. Constroem-se com visão, escala e ambição. A questão é simples: queremos acompanhar ou queremos liderar?

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