Artigo de opinião AEB | Acelerar o comércio sem parar a meio
26 Out 2026

Quem está à frente de um pequeno negócio sabe que o tempo raramente chega para tudo. Entre atender clientes, gerir fornecedores, acompanhar a equipa e fazer contas, modernizar a empresa acaba muitas vezes por ficar adiado. Há consciência de que é preciso mudar. Mas nem sempre há disponibilidade, conhecimento ou recursos para dar esse passo.
É por isso que, quando falamos de transformação digital do pequeno comércio, temos de começar pela realidade dos empresários. Uma solução pode ser excelente e, ainda assim, ficar por utilizar se ninguém ajudar a perceber para que serve, como se aplica e o que pode melhorar no negócio.
O projeto Acelerar o Norte procurou responder a esta dificuldade, combinando diagnóstico, orientação, capacitação e apoio à contratação de serviços digitais. O balanço divulgado, com cerca de seis mil empresas abrangidas, acima da meta inicial de 4.444, demonstra uma capacidade de mobilização assinalável.
Em Braga, conhecemos bem o trabalho que está por detrás destes números. A Aceleradora de Braga, dinamizada pela Associação Empresarial de Braga, envolveu cerca de mil empresas e mobilizou aproximadamente um milhão de euros em serviços de consultoria prestados às empresas aderentes. São recursos colocados ao serviço da modernização dos negócios, num tecido empresarial em que cada investimento tem de ser muito bem ponderado.
Este resultado também mostra a importância das associações empresariais na concretização das políticas públicas. Estamos próximos, conhecemos as empresas, falamos com os empresários e percebemos as suas dificuldades. Essa relação permite chegar a negócios que dificilmente avançariam sozinhos e possibilita transformar uma oportunidade de apoio numa decisão concreta de investimento.
Na AEB, sentimos diariamente que muitos empresários querem fazer mais e melhor. Precisam de respostas simples, de orientação em que confiem e de alguém que os ajude a passar da intenção à prática. É nesse acompanhamento que uma equipa próxima e preparada faz a diferença.
Naturalmente, o balanço exige que olhemos para além do número de empresas envolvidas ou do montante mobilizado. Precisamos de perceber o que mudou: se as ferramentas estão a ser utilizadas, se permitem trabalhar melhor, se ajudam a conquistar clientes ou a libertar tempo para gerir o negócio. É aí que se mede a utilidade do projeto.
Mas há outro resultado que devemos valorizar: a capacidade que foi criada para fazer este trabalho. Foram preparadas equipas, acumulou-se experiência, conheceram-se melhor as necessidades das empresas e construíram-se relações de confiança.
Faz sentido deixar dispersar essa capacidade quando estamos em condições de a aproveitar melhor? Parece-me que a resposta é clara.
O Estado português deve, por isso, preparar e lançar rapidamente uma versão 2.0 do projeto das Aceleradoras de Comércio Digital, que dê continuidade às equipas e ao trabalho desenvolvido, com melhorias concretas no modelo de apoio. Temos experiência suficiente para identificar alguns ajustamentos que podem aumentar bastante a sua eficácia.
O primeiro é duplicar o valor máximo dos vouchers, de dois mil para quatro mil euros. Se queremos que as empresas concretizem mudanças com maior alcance, o apoio tem de acompanhar essa ambição. Um diagnóstico útil pode identificar várias necessidades relacionadas entre si. Um voucher reforçado permitiria responder de forma mais completa a essas necessidades e dar maior consequência ao plano de transição digital.
O segundo é alargar consideravelmente a rede de fornecedores qualificados e simplificar o processo de acreditação. As empresas devem poder escolher entre mais soluções e encontrar quem melhor responde à sua realidade. Há que preservar a exigência de qualidade e, ao mesmo tempo, tornar o acesso mais ágil para os prestadores que demonstrem competência. Quanto mais adequado for o encontro entre a necessidade da empresa e a capacidade do fornecedor, maior será a utilidade do investimento.
O terceiro é permitir a aquisição de licenças de software e de dispositivos de hardware, enquadrados no plano de transição digital. Para uma pequena empresa, a mudança pode depender de uma aplicação de gestão, da licença necessária para a utilizar ou de um equipamento que permita pôr a solução a funcionar. O apoio deve acompanhar aquilo de que o negócio efetivamente precisa para avançar.
Uma segunda fase deve também reconhecer que as empresas estão em momentos diferentes. Algumas precisam de começar. Outras já deram os primeiros passos e necessitam de consolidar o que fizeram, integrar ferramentas ou explorar novas possibilidades, incluindo aplicações práticas de inteligência artificial.
Em qualquer dos casos, o objetivo tem de ser compreensível para o empresário. O apoio deve ajudá-lo a vender melhor, organizar melhor, servir melhor o cliente e ganhar tempo para se dedicar ao negócio, porque a tecnologia só tem valor quando ajuda a resolver problemas concretos.
É este o caminho que importa seguir. Aproveitar a equipa montada e preparada, reforçar os instrumentos disponíveis e acompanhar os resultados. Agora que conseguimos acelerar a digitalização no comércio e nos serviços, é fundamental dar continuidade a este projeto de sucesso. Com maior ambição, mantendo a exigência e aproveitando a experiência acumulada para melhorar a qualidade da resposta.
O pequeno comércio tem um papel essencial na economia e na vida das nossas cidades. Dá emprego, cria relações de proximidade e contribui para a identidade e a atratividade dos centros urbanos. Ajudá-lo a modernizar-se é investir na sua capacidade de continuar a cumprir esse papel. É investir no futuro das nossas cidades e vilas. É investir no futuro do país.
Rui Marques,
Diretor-Geral da AEB