Opinião | Restauração: um novo mapa do consumo e o desafio do centro histórico

09 Fev 2026

A restauração em Braga vive hoje um momento de ajustamento e reposicionamento, particularmente visível no centro da cidade.

Em 2025, o valor transacionado na restauração do centro de Braga registou uma redução de 4,8% face ao ano anterior. No entanto, no mesmo período, o total transacionado na restauração em todo o município cresceu 7,4%.

Estes números são claros: não estamos perante uma diminuição estrutural do consumo, mas sim perante uma deslocação do local onde esse consumo acontece, com um crescimento evidente dos estabelecimentos situados na periferia urbana e nos centros comerciais.

Importa ainda sublinhar que a quebra da procura no centro da cidade tem sido parcialmente amortecida pelo aumento da procura turística, que em 2025 registou um crescimento de 13,6%. Este crescimento contribui para mitigar os efeitos da redução do tráfego diário e da procura por parte de clientes locais e regionais, desempenhando hoje um papel relevante na sustentação da atividade de muitos estabelecimentos do centro histórico.

Contudo, este fenómeno coloca também um desafio estratégico: o peso dos turistas estrangeiros representa já cerca de 20% do volume total das transações na restauração do centro, o que, se por um lado reforça a atratividade internacional da cidade, por outro pode contribuir para a perceção de que a restauração do centro está excessivamente orientada para o público turístico. Garantir o equilíbrio entre a captação de visitantes e a manutenção de uma oferta relevante para residentes e consumidores da região será, por isso, determinante para a vitalidade e autenticidade da restauração no coração da cidade.

O que este conjunto de indicadores evidencia é, sobretudo, uma mudança nos padrões de mobilidade, de conveniência e de escolha dos consumidores, que penaliza de forma particular os estabelecimentos localizados no centro histórico.

Este fenómeno cruza-se com tendências que já vinham a marcar o setor: o aumento dos custos operacionais, a dificuldade na contratação de recursos humanos, a pressão das rendas e uma maior sensibilidade ao preço por parte dos clientes. A estes fatores soma-se ainda o impacto do teletrabalho e dos regimes híbridos, que reduziram a presença diária de trabalhadores no centro urbano e alteraram profundamente a lógica da restauração baseada no consumo regular ao almoço durante a semana.

Apesar deste contexto, importa dizê-lo com clareza: Braga não está a perder a sua relevância enquanto destino gastronómico. O que está em causa é a necessidade de reposicionar a restauração do centro da cidade num mercado que se tornou mais competitivo, mais disperso e mais exigente.

Braga continua a dispor de um ativo diferenciador que muitos territórios não têm: uma identidade gastronómica própria e reconhecida. Durante décadas, a cidade afirmou-se como referência nacional do bacalhau, apoiada por uma restauração especializada e valorizada. A este património juntam-se o vinho verde, produto emblemático do Minho, e uma doçaria tradicional profundamente enraizada na memória coletiva e na cultura local.

O principal desafio não foi a modernização da oferta. O verdadeiro problema foi, em muitos casos, a progressiva diluição dessa identidade, com a proliferação de propostas generalistas, pouco diferenciadas e fortemente orientadas para a concorrência pelo preço. Num contexto de custos crescentes e de maior volatilidade da procura, este posicionamento revelou-se particularmente vulnerável.

Se o centro de Braga pretende recuperar centralidade no consumo de restauração, é fundamental assumir opções estratégicas claras. A diferenciação, ancorada na identidade, na qualidade do produto e na ligação ao território, é hoje um fator crítico para competir com a oferta instalada em localizações de maior conveniência.

Mas a valorização da identidade não é suficiente por si só. A sustentabilidade do setor exige também uma aposta consistente na profissionalização da gestão. Muitos restaurantes continuam a ser geridos com enorme empenho pessoal, mas sem instrumentos adequados de controlo de custos, gestão de margens, planeamento de recursos humanos ou apoio à decisão. Num mercado mais competitivo, a capacidade de gerir com rigor tornou-se um verdadeiro fator de sobrevivência.

A qualidade da experiência oferecida ao cliente assume igualmente um papel central. Cozinha consistente, serviço de mesa profissional, equipas capacitadas para comunicar o produto, contar a sua história e criar relação com o cliente são hoje elementos decisivos de diferenciação. Num mercado onde a oferta é abundante, é cada vez mais a experiência global que determina a escolha e a fidelização.

A este esforço junta-se um terceiro pilar fundamental: a inovação. Inovar não significa abandonar a tradição, mas saber adaptá-la aos novos hábitos de consumo. Significa responder ao crescimento do teletrabalho, à maior procura por refeições equilibradas, a soluções prontas a consumir, à valorização da sustentabilidade e do produto local, bem como à integração de soluções digitais simples que facilitem a relação com o cliente e a gestão do negócio.

O futuro da restauração no centro de Braga constrói-se, assim, no equilíbrio entre identidade, profissionalização e inovação.

A Associação Empresarial de Braga está empenhada em apoiar este percurso, através da capacitação dos empresários, da valorização da identidade gastronómica da cidade e da promoção de dinâmicas coletivas que reforcem a atratividade do centro histórico. A revitalização do centro de Braga passa, inevitavelmente, por uma restauração qualificada, diferenciada e capaz de responder às novas lógicas de consumo.

Braga tem história, tem produtos únicos e tem talento empresarial. O desafio que se coloca hoje não é o de resistir a uma suposta quebra do consumo, mas sim o de reconquistar centralidade num mercado que se reorganizou. Para isso, serão determinantes a estratégia, a cooperação e a ambição coletiva do setor.

Os empresários do setor, a cidade e o país podem continuar a contar, como sempre, com uma AEB atenta, próxima e interventiva, a assumir a liderança na mobilização e na capacitação das empresas da restauração, para construir um futuro mais competitivo, mais qualificado e mais sustentável para o centro da cidade e para o concelho de Braga.

 

Daniel Vilaça, Presidente da AEB

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