Álvaro de Campos — “Lisbon Revisited (1923)”

10 Mar 2026

Amar. Sonhar. Viver em Braga

Uma iniciativa da Associação Empresarial de Braga

20 de março a 20 de abril


POESIA À MONTRA

Braga é uma cidade feita de encontros: entre o passado e o futuro, entre a tradição e a inovação, entre quem aqui vive e quem chega todos os dias.

É dessa vocação de diálogo que nasce POESIA À MONTRA, uma exposição literária que transforma as ruas do centro histórico de Braga num percurso poético aberto a todos.

Ao longo de 30 montras de estabelecimentos comerciais, o público é convidado a descobrir uma seleção de poemas de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos — Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Cada montra corresponde a um capítulo desta viagem pela cidade e pela experiência humana.


O POEMA DESTA MONTRA

Leia o poema desta montra na íntegra.

 

LISBON REVISITED (1923)

 

Não: não quero nada

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —

Eterna verdade vazia e perfeita!

Ó macio Tejo ancestral e mudo,

Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

 

1923
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 247.

1ª publ. in Contemporânea, nº 8. Lisboa: 1923.


DESCUBRA OUTRAS MONTRAS

Explore o mapa e descubra os restantes poemas espalhados pelo centro histórico de Braga.


 

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