Álvaro de Campos — “Poema em linha recta”

10 Mar 2026

Amar. Sonhar. Viver em Braga

Uma iniciativa da Associação Empresarial de Braga

20 de março a 20 de abril


POESIA À MONTRA

Braga é uma cidade feita de encontros: entre o passado e o futuro, entre a tradição e a inovação, entre quem aqui vive e quem chega todos os dias.

É dessa vocação de diálogo que nasce POESIA À MONTRA, uma exposição literária que transforma as ruas do centro histórico de Braga num percurso poético aberto a todos.

Ao longo de 30 montras de estabelecimentos comerciais, o público é convidado a descobrir uma seleção de poemas de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos — Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Cada montra corresponde a um capítulo desta viagem pela cidade e pela experiência humana.


O POEMA DESTA MONTRA

Leia o poema desta montra na íntegra.

 

POEMA EM LINHA RECTA

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

 

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  – 312.


DESCUBRA OUTRAS MONTRAS

Explore o mapa e descubra os restantes poemas espalhados pelo centro histórico de Braga.


 

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