Entre um 2023 exigente e um 2024 desafiador

29 Dez 2023

No programa ‘Vamos Falar de Direito’ da FafeTV, o Diretor-Geral da Associação Empresarial de Braga analisou o cenário económico vivenciado ao longo do ano de 2023. Neste episódio especial transmitido através do Salão Nobre da AEB, Rui Marques apresentou ainda as suas expectativas para a economia portuguesa no próximo ano de 2024.

Na reta final de 2023, o Diretor-Geral da AEB apontou a crise inflacionista como um dos maiores desafios enfrentados ao longo do ano. No entanto, sendo este “um problema praticamente resolvido”, Rui Marques debruça agora as suas preocupações sobre “as subidas sucessivas das taxas de juro”.

“Neste momento é mais preocupante o agravamento das taxas de juro do que a inflação. As taxas de juro asfixiam as famílias, algo que não se consegue contornar ou minimizar. Também para as empresas, o aumento dos custos de financiamento tornou muito mais difícil a gestão da sua tesouraria e a realização de investimentos. Estamos a assistir a uma retração do investimento privado em Portugal e na Europa, que resulta em crescimentos muito baixos. Tudo isto está a prejudicar o dinamismo da nossa economia”, defendeu.

Questionado quanto à atualização do Salário Mínimo Nacional para 820 euros em 2024, o Diretor-Geral da AEB considera este “um aumento necessário para a economia e para o país”. Apesar de ser “difícil para as empresas acompanhar os aumentos significativos e sucessivos”, Rui Marques acredita que este é uma medida fundamental, principalmente no que diz respeito à retenção talento.

O Diretor-Geral da AEB aponta, contudo, o crescimento da produtividade como uma condição necessária, embora ainda não suficiente, para o crescimento sustentado dos salários.

“Os aumentos têm de estar relacionados com a produtividade das empresas. No entanto, se neste momento assim o fosse, eram insignificantes, pois ainda se verificam bastantes lacunas ao nível da produtividade. Portugal precisa, por isso, de alinhar o crescimento dos salários reais com o crescimento da produtividade das empresas, de modo a gerar um círculo virtuoso em que a valorização salarial gera um incentivo a ganhos adicionais de produtividade. Não se verificando esta realidade, reconheço a necessidade destes aumentos artificiais”.

Apesar de necessária, esta alteração ao salário mínimo traz consigo alguns constrangimentos às empresas. “Este aumento muito rápido tem um efeito perverso no ambiente organizacional. As empresas não conseguem aumentar todos os salários na mesma proporção, o que provoca um sentimento de desmotivação nos restantes trabalhadores que veem o seu salário muito próximo deste limite mínimo”.

Para além do esforço realizado por parte do setor privado, Rui Marques acrescentou ainda o compromisso exigido ao Estado, na promoção de um sistema fiscal que assegure uma mais justa e equilibrada redistribuição da riqueza, sendo prioritária a redução da carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho.

“Esta ajuda não pode ser realizada apenas às custas das empresas. O país nunca recebeu tantas receitas do IRS como hoje recebe, nunca arrecadou tantas receitas para a Segurança Social como hoje. O Estado, inevitavelmente, tem de começar a ajudar a economia, as empresas e as famílias, e tributar com menor intensidade. Só assim será possível fazer este caminho, nomeadamente na valorização salarial que todos almejamos. O Estado tem de ser um parceiro-ativo”, vincou.

A discussão à volta do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) centrou-se numa questão: este é um plano “amigo” do Estado ou das empresas? Para o Diretor-Geral da AEB a resposta é evidente, sendo que apenas 30% do dinheiro do PRR será destinado ao setor empresarial.

“A maior parte do dinheiro vai ser aplicado no Estado. Mesmo os 30% são só para empresas de média e grande dimensão, as micro e pequenas empresas não têm acesso ao PRR. Portanto, esta será uma oportunidade desperdiçada de pegarmos num conjunto muito significativo de recursos para transformarmos o nosso país”, acentuou.

A par do PRR, também a estratégia do Portugal 2030 está, segundo Rui Marques, “a ser mal executada”. “Num momento em que o país precisa de investimento para crescer e alcançar a sustentabilidade que todos ambicionamos, o Portugal 20-30 está praticamente paralisado”.

“Mesmo que se queira pôr o Portugal 2030 a funcionar já no próximo governo, vai ser muito difícil, porque a maior parte dos regulamentos estão ainda por produzir. Este é já o 7.º quadro comunitário que temos com a Europa e não é aceitável que após estes anos de experiência continuem a ocorrer os mesmos erros”, salientou.

Rui Marques reforçou, ainda, a preocupação da AEB face à administração do programa Portugal 2030.

“Num período de dificuldade, em que o país tem de arregaçar as mangas, transformar e convergir, acabamos por cometer sempre os mesmos erros. Portanto, vemos com muita apreensão e preocupação, o atraso no Portugal 2030. O que esperamos é que não se cometam os mesmos erros que se cometeram no PRR de direcionar os fundos maioritariamente para o Estado, e sim canalizá-los para a economia, para as empresas, para a inovação, para a produtividade e para a internacionalização. Só assim será possível crescer de forma sustentada”, concluiu.

Transmitido na Fafe TV, este programa contou também com a participação de Clementino Cunha, da Ccm Advogados, e Luís Carvalho, da Associação Empresarial de Fafe, Cabeceiras e Celorico de Basto. Veja o vídeo na íntegra AQUI.

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