Natal voltou às ruas de Braga | Entrevista do Presidente da AEB ao Correio do Minho
15 Dez 2021

P – Com o mês de Dezembro ainda a correr, já é possível um balanço do ano de 2021 no que à atividade comercial diz respeito na zona de influência da Associação Empresarial de Braga (AEB)?
R – Apesar da crise pandémica vivida em 2020 e 2021, a performance da atividade comercial em Braga manteve-se estável e até mais vigorosa do que acontece em outras cidades e regiões do nosso País. Constata-se que a perda de postos de trabalho no setor comercial e o número de estabelecimentos comerciais encerrados no decurso da pandemia não são, felizmente, muito significativos na nossa cidade e região. Tal se deve, em larga medida, à grande capacidade de resiliência e confiança no futuro dos nossos empresários e empresárias. Em todos os concelhos de área de influência da AEB verifica-se uma recuperação económica assinalável nos setores do comércio e serviços, o que nos permite estimar que se vá encerrar o ano de 2021 com um crescimento médio da ordem dos 13% face ao ano anterior. Apesar da taxa de crescimento ser muito semelhante em todos os concelhos, varia entre os 12% e os 15%, podem retirar-se duas conclusões fundamentais deste período pandémico:
– os concelhos de baixa densidade foram menos impactados, do ponto de vista económico, durante a fase crítica da pandemia e deverão encerrar o ano de 2021 com um volume de negócios significativamente superior ao do ano 2019 (Vila Verde e Terras de Bouro na ordem dos 30%, Amares perto dos 20% e Póvoa de Lanhoso dos 15%). A exceção será Vieira do Minho em que a recuperação verificada em 2021 não será suficiente para recuperar das perdas verificadas em 2020.
– o concelho de Braga, mais urbano e de maior dimensão, sofreu quebras consideráveis durante a fase crítica da pandemia, mas o crescimento registado em 2021 permitirá suplantar as perdas verificadas em 2020, encerrando o ano com valores ligeiramente acima do último ano pré-pandemia.
P – Sendo Braga um pólo de atracão comercial muito forte, de que forma isso inibe o desenvolvimento da oferta em concelhos limítrofes como Vila Verde, Amares e Póvoa de Lanhoso?
R – A afirmação de Braga como pólo de atração comercial muito forte no contexto geográfico do Norte de Portugal e da Galiza tem, naturalmente, efeitos sobre a estrutura e oferta comercial de outras cidades e vilas vizinhas, designadamente em termos de atração, fixação e desenvolvimento do investimento e consumo associados a insígnias comerciais e conceitos de negócio com maior capacidade de atração de consumidores. Todavia, a diversidade, a modernidade e, sobretudo, a proximidade do comércio instalado em concelhos limítrofes faz com que o mesmo seja competitivo e bastante resiliente. Não podemos esquecer que as compras no comércio local tiveram um aumento muito significativo durante a pandemia, porque a maioria dos consumidores deu prioridade à conveniência, à proximidade e ao distanciamento social. Braga é um território atrativo, vibrante e dinâmico em termos empresariais e culturais, sendo por isso um destino apetecível para investidores e consumidores. Se em Vila Verde, em Amares, na Póvoa de Lanhoso ou em outros territórios da nossa região continuar a existir uma atividade empresarial forte e inovadora é possível fixar e até atrair população, levando a que seja mantida e reforçada a oferta comercial e de serviços nestes concelhos.
P – De que forma o reforço de algumas medidas de contenção da nova vaga da pandemia está a afetar a atividade comercial?
R – Mais uma vez as principais atividades impactadas com esse reforço de medidas de contenção são as ligadas à mobilidade de quem reside e trabalha na região, ao turismo e à realização de eventos. Um dos principais atributos do destino Braga é essencialmente a sua forte vocação comercial, cultural e gastronómica, daí que o setor da restauração e similares seja muito afetado pela imposição de medidas restritivas. Com o regresso do teletrabalho e a passagem à situação de isolamento de muitas pessoas por motivos de saúde pública, voltamos a uma situação de maior procura de soluções de abastecimento associados ao comércio eletrónico e comércio de proximidade, em detrimento do comércio instalado nos grandes pólos e zonas comerciais urbanas.
Importa ainda referir que a indústria e a generalidade das atividades dos setores produtivos estão a ser fortemente afetados pela evolução da crise pandémica a nível mundial. Confrontam-se com a escassez e subida de preços nas matérias-primas e com um aumento dos custos energéticos e no transporte de mercadorias. Esta evolução desfavorável na produção industrial e no comércio internacional retira capacidade competitiva às empresas portuguesas mais expostas ao mercado global.
P – Essas medidas penalizam mais outros sectores como a restauração e o alojamento turístico?
R – Sem dúvida!
São os setores mais afetados com as restrições no acesso e funcionamento dos espaços comerciais, bem como em termos de redução da mobilidade dos consumidores. Por exemplo, a evolução da situação pandémica e as medidas restritivas para conter o aumento de casos de infeção e doença, estão na base da suspensão de inúmeros almoços e jantares de grupo nesta quadra festiva, com inevitáveis perdas para muitas empresas destes setores. Desde julho de 2021, que o setor da restauração e similares em Braga estava a recuperar das sucessivas quebras de faturação durante 16 meses de pandemia. Do verão até à quadra natalícia essa recuperação foi-se consolidando, pelo que é fundamental que não seja interrompida nos primeiros meses de 2022. Acreditamos que uma elevada taxa de vacinação da população portuguesa e europeia contra a Covid.19 nos vai a ajudar a mitigar os efeitos da pandemia nos vários setores empresariais, em especial no comércio, restauração e alojamento turístico.
P – Encontrando-se, apesar de tudo, no rumo de alguma normalidade face à situação pandémica, é possível traçar uma avaliação do impacto que a mesma teve/está a ter no tecido económico da região?
R – Os efeitos mais recessivos sentem-se no tecido económico ligado ao turismo, restauração, comércio não alimentar, transportes, organização de eventos, atividades culturais e de lazer. Também os setores produtivos estão a agora a ser afetados pela falta de matérias-primas e uma forte subida dos preços da energia e transportes. Mas a verdade é que esta pandemia afetou e continua a afetar de forma assimétrica os vários setores e atividades. As empresas mais afetadas estão a repensar a sua dimensão e estratégias de atuação, no sentido de aproveitar novas oportunidades de negócio. O que mais nos preocupa é a grande incerteza quanto à duração da pandemia, porque o prolongamento de uma situação sanitária instável a nível mundial vai ter efeitos recessivos muito severos em termos de comércio internacional, fluxos turísticos e realização de investimentos.
P – A Câmara Municipal de Braga, como a generalidade das autarquias do país, faz um investimento considerável no programa de animação natalícia. É um investimento com retorno, na sua opinião?
R – É um investimento fundamental para afirmar Braga como destino de excelência para as compras de Natal e Ano Novo no contexto nacional e ibérico. Temos de reconhecer que é um grande esforço de investimento que o Município concretiza para atrair a atenção e preferência de consumidores e visitantes. O principal objetivo é criar um ambiente acolhedor e cosmopolita numa cidade que tem uma oferta comercial diversificada, apelativa e de reconhecida qualidade. As vendas e os serviços prestados durante a quadra natalícia têm um peso decisivo na atividade comercial da nossa região. Em vários estabelecimentos comerciais, as vendas de Natal e Ano Novo representam 30 a 40% do total dos resultados obtidos em cada ano, sendo, por isso, um período do ano fundamental para garantir a viabilidade e sustentabilidade desses negócios. É neste contexto que se enquadra esta aposta forte num programa de animação e decoração de Natal atrativo para quem reside e visita Braga nesta época tão especial do ano.
P – Como antevê 2022 no que respeita à dinâmica da AEB e ao desenvolvimento da atividade empresarial nos concelhos onde a associação está implantada?
R – A AEB vai entrar num novo ciclo de afirmação do seu projeto associativo e de apoio ao desenvolvimento da comunidade empresarial da região. O mandato dos atuais órgãos sociais da AEB termina no final deste ano, pelo que em breve será convocada uma assembleia eleitoral. Para além de se dar continuidade ao processo integração de outros setores e empresas nesta associação empresarial, tornando-a mais representativa e abrangente, vamos dar prioridade a atividades que possam contribuir para a recuperação da economia e, em especial, das empresas mais impactadas pela crise pandémica. Neste sentido, não deixaremos de reforçar a nossa oferta de serviços e projetos em áreas fundamentais para as empresas como a qualificação de recursos humanos, a transição digital, a transição ecológica e descarbonização dos processos produtivos, a economia circular, a internacionalização dos negócios, a inovação empresarial e o acesso a programas de incentivos, capitalização de empresas e investimento. Olhamos para o futuro com grande confiança, porque acreditamos muito na proatividade e capacidade empreendedora das nossas empresas e empresários. Creio que o ano de 2022 pode ser, no que respeita à evolução da pandemia e seus efeitos sobre a atividade económica, um ano de viragem e de retoma de bons níveis de desempenho empresarial. O desenvolvimento da atividade empresarial nos concelhos da área de abrangência da AEB será positivamente influenciado se:
– ocorrer uma evolução favorável na situação pandémica e na procura de bens e serviços;
– aumentar o investimento público e privado;
– aumentarem as iniciativas e projetos de qualificação e rejuvenescimento do tecido económico.
Durante a pandemia ficou bem patente a capacidade de reinvenção evidenciada por muitos empresários e a sua enorme resiliência perante situações tão críticas como o encerramento temporário das empresas e a quebra abrupta nas vendas. Pode-se mesmo dizer que as crises provocam mudança, obrigando a otimizar processos e a obter ganhos de eficiência. Por isso, creio que temos hoje empresas mais eficientes, mais produtivas e mais preparadas para os desafios do futuro.