Artigo de opinião | Atividade económica resiste à crise energética sacrificando margens

06 Mai 2022

A guerra na Ucrânia tem conduzido a uma grande instabilidade nas cadeias de abastecimento de matérias-primas e, bem assim, no setor energético, o que se traduz no aumento do preço de bens alimentares de primeira necessidade e dos combustíveis, com impactos expressivos na economia, nos consumidores e nas famílias.

Segundo os dados apresentados pela CIP – Confederação Empresarial de Portugal, no âmbito dos resultados ao inquérito Sinais Vitais feito durante o mês de abril às empresas portuguesas, a atividade económica em Portugal tem resistido ao impacto da guerra na Ucrânia e à aceleração da inflação. As previsões para 2022 são até bem razoáveis, mesmo depois das revisões em baixa já promovidas, projetando um aumento do PIB de 4% (FMI) ou 4,9% (governo), assente quer no crescimento da procura interna quer das exportações.

É certo que a comparação com os dados de 2021 puxa os números para cima. Mas a verdade é que as pessoas estão a comprar mais e as encomendas e vendas das empresas a registar um crescimento. É, no entanto, também verdade que a pressão inflacionista continua a aumentar e a provocar sérios problemas às empresas e aos consumidores.

Tendo em conta a inflação de 5,3% registada em março, provocada sobretudo por causa da energia, mas também pela forte pressão em várias matérias-primas e nos custos de transporte e de logística, há uma parte significativa do brutal aumento dos custos de operação (da ordem dos 20% no total dos custos operacionais) que não está a ser repercutida nos preços pagos pelo consumidor. As empresas estão a sacrificar margens para segurar clientes e mercado, na expectativa que a guerra acabe depressa e os custos operacionais baixem novamente.

Mas, infelizmente, já percebemos que esta crise não terminará de forma rápida. Portanto, este aumento de custos terá de ser transferido para os consumidores, sob pena da viabilidade de muitas empresas ficar irremediavelmente em causa. Lembre-se que muitas micro e pequenas empresas resistiram à pandemia no limite das suas forças e que chegaram a 2022 com os seus balanços muito debilitados.

Esta tentativa de proteger os consumidores dos impactos da inflação está a acontecer um pouco por todo o lado, mas em Portugal de forma mais acentuada, até porque a comunidade empresarial tem plena consciência da fragilidade do poder de compra dos portugueses. Aliás, só assim se justifica que a inflação em Portugal, em março, tenha sido de 5,3%, ao passo que na nossa vizinha Espanha ascendeu a 9,8%, na União Europeia foi de 7,3% e nos Estados Unidos de 8,5%.

O governo tem estado a ver o que acontece, procurando com algumas medidas avulsas, e de caráter simbólico, minimizar o problema e evitar o aumento da contestação social.

São exemplos destas medidas, a redução do ISP no equivalente à redução da taxa do IVA para 13%, a flexibilização no pagamento de obrigações fiscais e contributivas no primeiro semestre de 2022, para empresas de setores particularmente afetados pelo aumento dos preços da energia ou o anunciado Programa Apoiar Indústrias Intensivas em Gás.

Este último é um programa destinado às empresas industriais com estabelecimentos no território continental, cujos custos unitários de gás entre fevereiro e dezembro de 2022 sejam pelo menos o dobro dos custos médios de 2021, que estejam inseridas em setores com utilização intensiva de gás ou que tenham um custo total nas aquisições de gás em 2021 de, pelo menos, 2% do valor da produção.

O apoio a conceder consiste numa compensação a fundo perdido, que pode cobrir, no máximo, 30% do aumento dos custos, com um limite de cerca de 400 mil euros por empresa.

Ainda em relação aos custos da energia, é evidente que a guerra da Ucrânia veio potenciar o problema, mas o problema já existia. Em 2021, apesar de Portugal ter importado menos 0,8% do volume verificado em 2020, pagou 70% mais pelas importações de gás.

Porém, mais do que estas medidas mitigadoras da escalada de preços da energia, é fundamental que se promova a alteração do paradigma do mercado energético, apostando em soluções que permitam reduzir a dependência energética nacional com recurso a combustíveis mais eficientes, mais limpos, mais acessíveis e, por isso, mais competitivos para o país, para as empresas e os cidadãos.

– artigo de opinião do Diretor Geral da AEB, Rui Marques, no Jornal Correio do Minho

Próximos cursos
3315- Nutrição e Dietética
Online
Início a 31-05-2022
8258- Novas tendências da cozinha (Vegetariana/Macrobiótica/Dietética/Biológica)
Academia Restauração AEBraga- Praça Conde Agrolongo, nº 175/176 4700-312 Braga
Início a 02-06-2022
0392- Comércio eletrónico e e-business
Online
Início a 01-06-2022
9220- Gestão de Conteúdos Digitais
Online
Início a 20-06-2022
Agenda
Torne-se associado
A AEB oferece aos seus Associados uma série de vantagens nos serviços que presta.